Certa vez, no MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), presenciei um grupo de crianças aproximar-se do quadro A Ponte Japonesa sobre a Lagoa das Ninfeias em Giverny de Claude Monet. Sob a orientação da professora, todas deram passos para trás. A intenção era óbvia: mostrar que aqueles borrões compunham, à distância, formas reconhecíveis. Uma ponte. Um jardim. Flores. A compreensão tomou os pequenos de assalto aos poucos, e todos se viram sorridentes e encantados com a imagem que se formou diante de seus olhos. Passados alguns instantes de risadinhas e olhinhos brilhantes, a professora levou-os para outra tela. Fiquei ali pensando que, fosse eu a educadora, teria feito as crianças olharem novamente o quadro de perto. Teria mostrado o outro grande trunfo da arte impressionista, que não era apenas o de reproduzir cenas corriqueiras da Paris da segunda metade do século XIX em uma profusão de cores e formas difusas. Era também o de trazer, por trás destes instantes eternizados, uma nova abordagem técnica. Uma abordagem que, destacando a pincelada que antes se escondia e a apresentando o quadro como um fim em si em lugar de uma recriação do real, reinventava a forma e abria as portas para a arte moderna.
É claro que não foi nada fácil para os pintores impressionistas tornarem sua estética aprazível aos olhos dos homens e mulheres de seu tempo. Habituados ao classicismo da Academia e suas formas harmônicas, ordenadas e fiéis à natureza, eles consideravam uma afronta a nova arte dos jovens ambiciosos que se aventuravam para fora dos estúdios e para longe dos temas mitológicos, históricos e religiosos. Seus trabalhos eram vistos com desdém e, consequentemente, recusados nos salões de arte oficiais de Paris, o que os fazia promover exposições independentes a fim de apresentar ao público as suas obras. Foi em uma dessas exposições que o crítico Louis Leroy, após deparar-se com o quadro Impressão, Sol Nascente, de Monet, escreveu um artigo ao jornal “Le Charivari” referindo-se aos pejorativamente àqueles artistas como “impressionistas”, isto é, criadores de pinturas esteticamente imprecisas. A troça de Leroy foi mal sucedida; o nome não só foi aceito pelos artistas como apreciado por expressar seus novos olhares em relação à arte.
Impressão, Sol Nascente é um quadro elementar para entender a arte impressionista que, impulsionada pelo desejo de romper com o engessamento da Academia, desenvolveu-se sob três razões primordiais: a influência da arte japonesa, o surgimento da fotografia e a invenção das tintas em bisnagas. A retomada das relações comerciais e diplomáticas do Japão com o Ocidente possibilitou que muitos produtos nipônicos circulassem pela Europa na segunda metade do século XIX – entre eles, uma arte popular em gravuras que chamou a atenção dos artistas por sua estética singular. Não era uma arte preocupada em imitar a natureza, mas sim abstrai-la para retratar apenas o que interessava ao artista.
Observe esta paisagem do artista Keisai Eisen. O que vemos atrás das casas são borrões de tinta que nos dão a “impressão” de árvores. O céu é quase indistinguível da água, mas você não precisa de uma pintura mais detalhada para entender a paisagem. É este o tipo de abstração, presente em Impressão, Sol Nascente, que inspirou os impressionistas, bem como a representação de uma cena banal do cotidiano em um recorte fotográfico.
A chegada da fotografia, por sua vez, trouxe duas novas possibilidades para a arte em termos de forma. Ela tanto possibilitou para os impressionistas um afastamento das formas naturais, já que a representação fiel da natureza podia ser vista como redundante, como permitiu a exploração de novos enquadramentos, do movimento e da fugacidade. Já a invenção das tintas portáteis… bem, parece estranho dizer que elas desempenharam papel fundamental no impressionismo, mas de fato o fizeram por permitirem que os artistas pintassem fora dos estúdios e enxergassem, na natureza, aquela que era a essência da arte impressionista: os efeitos da luz sobre todas as coisas e como ela podia, de um instante para o outro, modificar nossa percepção. Olhar para um quadro de Monet, portanto, é apreender sua impressão de um instantâneo onde a luz é o verdadeiro motivo.
Para esta semana, escolhi como inspiração o quadro Jardim de Giverny de Monet, que será aprofundado no próximo post.



















































